sexta-feira, 30 de maio de 2008

Marionete de Vidro

Pare de olhar para mim... Você é um "eu" feito de vidro chorando lágrimas celestes que nem ao menos se faziam necessárias. Pare de olhar para mim, eu imploro. Esses olhos vermelho-presentes, gracejando o que sua tímida boca é incapaz de exprimir, me dão medo. Por que parece que vou sucumbir ao seu olhar? Meu olhar... Por que eu tive medo de uma marionete de vidro? Por que eu te vi diferente de mim? Ou me vi... Reflexo demoníaco algoz da sobriedade e pai do mau humor... Virei eu sua presa? Minha presa... Presa.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Plantação

Dormi. Quando acordei não era o mesmo lugar. Dúvidas foram plantadas e germinavam ferozmente como num conto infantil. O cheiro da nova plantação me causava náuseas. Pensei em botar fogo em tudo pra ver no que dava. Foi então que uma voz se precipitou e imobilizou meu corpo. Com a impaciência de uma criança que foi posta de castigo, ouvi tudo o que a aquela voz sábia tinha a me dizer. Sumiu. As plantas pararam de se estender. Permaneceram só as que lá já estavam. Cortei alguns galhos e construí um casebre. Agora, instalada em dúvidas, eu as observo com a tranquilidade de quem possui a eternidade.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Estou tentando me aprofundar no novo, eu juro. O olhar é novamente infantil, querendo perceber tudo para ver se reconhece mais tarde. Os rompantes de cólera tentam anuviar esse estado pra me tacar de volta no buraco sufocante que me abrigava há meses. Não quero. Não vou voltar pra lá, desculpa.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Desapontamento Reciclável

desde que me senti maleável
anseio por me sentir outra vez - contigo
contei os dias
esperei o inesperado
nada
tinha absoluta certeza de ao menos vê-lo
não vi
talvez tenha sido bom
com isso tive a convicção do querer
não é um querer profundo
mas é incrivelmente desejado
como há tempos não sentia por ninguém

domingo, 18 de maio de 2008

Funesta Embriaguez

A superficial irresponsabilidade crônica que tem tomado posse de meu ser, não sei se por descuido, acabou sendo nada superficial. Feriu com certa profundidade alguma parte intacta da minha dignidade. Tenho vergonha. Nada faz sentido e me apegar a objetivos tem sido uma árdua tarefa.
Minhas sinapses ainda não funcionam bem. Acho que são a vergonha e a culpa impedindo-as disso. Estou embriagada por sentimentos destrutivos e ao mesmo tempo sei que a cura está a meu alcance. Mas frases soltas de julgamentos doloridos ainda me açoitam.
Não era pra ser assim... Não era por isso... Não quero sentir culpa por algo que não estava fazendo...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Projeção

Finalmente tive o prenúncio de que o relógio completará o giro. A máquina do tempo até chegou a ensaiar minha projeção no futuro. Que nem daquela vez em que os olhos buscavam o descanso do velho. Acho, porém, que menor importância estava dando agora. Mas percebo ser "igual que nem". Não sei por que insisto em esquecer a ordem das coisas. E, efetivamente, a redução de vezes na semana é das melhores silhuetas que eu poderia pretender, até me dar conta de que os adornos do acaso podem ocorrer a qualquer momento. Não quero ser preconceituosa comigo mesma... Vou esperar as palavras esfriarem pra descobrir o sabor da sobremesa!

sábado, 10 de maio de 2008

O Velho, o "Novo". Nada

É muito louco sentir um ano e meio em menos de uma semana que provavelmente durou cerca de 10 minutos. É estranho amar de novo o passado. Sentir a ansiedade passada. Sentir as dores passadas mas com uma nova configuração. Sentir-se indesejado e ignorar. Relembrar a experiência antiga como se a ocorrência real tivesse sido mero sonho a fim de alertar, no sonho em si, que não daria certo. Déjà vu do estar só.
Estar só.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Maldito Seja

o dia nem tinha nascido e já se mostrava desagradável no parto
foi dada a luz em um suspiro frustrado do sonho que deveria ter sido e não foi
esse aglomerado de sentimentos ruins transparecem na face
nas roupas
no gestual afetado...
talvez a aceitação, ou mesmo a consciência tardia, tenham sido o imã para o que veio depois

a aula chata
a cara feia
o trabalho inviável

o almoço enforcado

a suprema falta de interesse pela aula seguinte
o sono em excesso
o abandono do dever...

a espera pelo ônibus sentido frio, calor, frio, calor, frio...
ter que entrar na jaula
querer ser legal e ficar com pesos nas pernas
[dormir]
acordar quase caindo do banco

ver a cara feia oferecida pelos porteiros
ler coisas preocupantes e se preocupar mesmo sabendo que não deve
ser ignorada
dormir horrores e acordar com sono
não fazer o que tinha sido programado

por que o botão do automático não funciona para o dia que merecia aborto?
por que os minutos andam com tanta preguiça?
por que eu...
por que...
por q...
por...
...
..
.

e o dia ainda não acabou
e os minutos ainda se arrastam...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Grito Mudo

Não entendo essa voz macia que cisma em escapar de meus lábios quando, no íntimo, tudo o que quer é soar estridente ou, até mesmo, não soar. A compreensão só piora quando essa docilidade aparente é dirigida à um estranho. - "Por que?" - Essa pergunta tem me alugado com a frequência diária de "ser o que não é", por pura incapacidade de se impor frente ao automático. É automático mentir para quem não se conhece?
Aí... Esse som que ecoa em minha cabeça... Parece o sino de uma Igreja dizendo que horas são, mas na verdade é a revolta por se revoltar e calar. Até quando?
Por que você se engana enganando? Você tinha parado com isso, lembra? É o medo de ser taxada? Já foi! Doeu tanto assim? Cadê aquele grito de foda-se o mundo que você se prometeu e até chegou a ensaiar? Vai se calar agora? Logo agora que você tinha resolvido ser por completo? Tenho vergonha de você! Covarde! Mentirosa!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Caminhando Entre Aromas Impertinentes

A mente insana conduzia um corpo desvairado
Calçada, asfalto, calçada, asfalto
CARRO!
Movimento abrupto em recusa da morte
Paralisia cerebral
Focar no objetivo
A vez é da mente perdida ser guiada
aromas: comidas
aromas: pessoas
aromas: lembranças
aromas
aromas
aromas
Pertencentes à que? À quem? Pra quê?
Parem de embaralhar os pensamentos
CHEGA!
Calçada, asfalto, calçada, asfalto...

domingo, 4 de maio de 2008

Auto-degustação

Quero me dissolver na água pra ver como fica.
Bater bem forte no liquidificador em busca de uma mistura homogênea.
Coar esses pedacinhos que atrapalham o degustar.

Vou me servir na melhor taça da cristaleira.

Amargo, doce, salgado, azedo ou apimentado?
Não, apimentado sei que não.
Mas o sabor, esse ainda não sei.

sábado, 3 de maio de 2008

Troca

Você não quer me ver.
Eu simplesmente estou quando você passa.
Ou não.
Cansei de ser o "vamos?".
Quero ser o "sim" ou o "não".

A Verdade

O ressentimento que exalava de mim acabou estilhaçando o espelho.
Aquele que vinha sustentando com as mãos.
Servia para minimizar os efeitos, ou até mesmo me iludir, deste mundo turvo.
Eu lembro ter dito não me importar com a cegueira.
Mas a verdade: essa luz machuca, e muito, os olhos.
Talvez seja essa a hora de por os óculos escuros...

Brinquedo Velho

Por que você insiste em dormir pra sonhar com o brinquedo velho?
Não o jogaram fora!
Por que você insiste em não ver?
Ele está sozinho e empoeirado na estante acima de você. Obedientemente do jeito que o deixaram.
Por que tem que ir tão longe buscando algo que está tão perto?
O que você quer?
É o brinquedo? Ou o que você sente quando lembra?
Eu quero brincar - ele diz.
E você?
Continua sonhando.
Por que você se nega em sentir de novo?
Se acha velha demais pra deixar fluir seu lado criança?
Ele quer brincar! Vá! Pare de se reprimir.
Ninguém está vendo.
Tomara que você perceba logo que ele ainda está aí.
Tenho medo do que possa sentir quando ele não estiver mais...

Açougue

Não aguento mais esse cheiro de carniça.
Detesto me sentir envidraçada na parte refrigerada do açougue.
Será que é pensado: leva quem pechinchar melhor?
Aí! Como esses olhares de procura pelo melhor pedaço me irritam! Tomara que todos, eu disse TODOS, só achem carne estragada... E que voltem à seus lares sucumbindo de fome.
É... Pare de pensar essas coisas... Vá, se divirta.
Que bom que essa discussão de um homem só não durou muito.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Pedido

Caro Ciúme,
Venho por meio desta, pedir firmemente que vá embora. Entenda, não é que eu não goste de você, é que já são tantos anos me acompanhando e mesmo assim não consigo me acostumar com sua presença. Acho que mereço experimentar novos relacionamentos, não? Eu sei que você trabalhou para que eu te aceitasse, que quis ser meu amigo e coisa e tal... Enfim, não dá certo. Fora que as vezes você fica meio doentio... Não queria que fosse assim... E menos ainda por carta... Espero que não fiquei chateado.
Beijos,
Zelo.



P.S.: Procure a Inveja, acho que se dará melhor com ela.

Colateral - Parte II

Mais uma vez o ambiente se funde à sua frente. Agora, está seguindo uma estrada cujo conhecimento teórico possuía desde que tomou consciência de sua existência. Maturidade, estava escrito na plaquinha. Vacilou frente ao crescimento iminente e decidiu recuar ao ponto de partida.
Segurou a chave com as mãos trêmulas e quase não acertou o buraco da fechadura.
Abriu a porta. Depositou a chave em um canto qualquer e saiu à procura do alguém com quem havia conversado à pouco.
O tempo da procura parecia interminável. Não se tem conhecimento se o ambiente é que era grande ou se foi a ânsia pela conversa tolhendo-lhe a razão. Mas estava lá. Adormecida dentro de um armário velho e empoeirado, que creio nunca ter sido percebido antes. Sacudiu o corpo com veemência, como se através desse ato fosse obter alguma resposta. Recebeu um olhar sonolento seguido de um acesso de fúria inimaginável quando contrastado com a meiguice anterior.
- Você por um acaso esqueceu as últimas palavras que eu dirigi à sua pessoa??????????????????????????
- Mas é claro que não. E, inclusive, posso repeti-las uma à uma se for de sua vontad...
- Só pode ser brincadeir...
- "Vou tirar um cochilo e nem pense em me acordar para abri-la", foram exatamente essas suas palavras.
- Droga! Você parece meio burra mesmo, ou então fica aí se fazendo de besta pra me tirar do sério...
- Tá mais calma?
- NÃO! E é melhor você falar logo por que voltou! Não te esperava por aqui tão cedo... - baixou tanto a voz que é de se espantar que ela própria tenha se ouvido - E pra ser sincera, acho que já enjoei de você...
- Não ouvi o que falou por último, pode repetir?
- Ah! Nada não hehehe - disse elevando a mão à cabeça.
- Então... Eu voltei porque acho que tive uma espécie de Déjà vu ao sair. Peguei algumas estradas e acabei na Maturidade, mas tive medo... Lembrei de umas conversas com minha mãe e tals...
- Isso??
- Bem... Eh...
- Diga o que quer saber.
- Quando você disse que me castrou mas que na realidade só dependia de mim e que eu tava de férias... Quê quis dizer com isso?
- Pensei que tivesse entendido... Tá... Talvez eu tenha sido meio falsa com você. Talvez eu tenha abusado da sua ingenuidade para conquistar sua confiança. Talvez o meu objetivo fosse que você se tornasse uma pessoa como outra qualquer...
- Você mentiu?
- Na realidade eu não sei...
- Aquele lance de "o eterno só depende de você" era mentira?
- Aíííí!!!!!! Já disse que não sei caramba!!!! Talvez eu quisesse que fosse...
- Você queria me inserir no tédio desde tão cedo????
- Não! Eu só queria que você não sofresse mais! Pare de me por contra parede!
- Você acha justo o que pretendia fazer comigo? Não percebe que esse tédio te açoitaria tanto ou mais que o que você chamou de "intenso"?
- Acho que não tinha percebido assim...
- Que faço de mim agora?
- Não sei...
- Quando eu não precisava da sua opinião, logo se prontificou em se intrometer...
- É que eu não quero te confundir de novo. Com sinceridade, penso que você deveria crescer como todo ser humano faz, conscientemente, ou não.
- Você não entende que assim minha vida é transformada em um filme mudo e em preto e branco????
- Como à de todos??
- E quem disse que eu quero ser igual?
- Bem... Sempre te pegava pensando isso para ser aceita...
- Era mentira!!!!!!!!!!!!
- Tem certeza??
- Agora tenho.
- Hmmm...
- Me diz! Por favor! O que eu faço pra essa frieza parar de aumentar??? Preciso saber!! Não quero ser um adulto!! Quero continuar a ver as coisas como sempre vi! Quero continuar sendo criança até morrer, se for preciso! Quero o entusiasmo infantil! Quero a ansiedade! Quero!
- E agora você diz isso...
Chorou durante horas. Uma frente à outra. A escassez das palavras ocorreu automaticamente. E o silêncio findou sua cólera levando-a de volta à realidade. Ou não.

Imagem X Objeto

A imagem das pessoas não me interessa mais.
Agora eu quero o objeto em si, mesmo que esse me cause cegueira.
De reflexo, o meu me basta.
Aliás, cansei de me ver invertida...
E o máximo que posso fazer é parar de mostrar esse ser ilusório criado para auto-proteção.
Será pedir demais querer deixar de ver o mundo através de um espelho?