quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Cartada

vamos jogar buraco.
vamos jogar no buraco.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sou o meu pivete preferido. Minha nova coleção é a de rostos espantados. Do esconderijo encaracolado resta-me apenas dar a cara a tapa.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Palavras de açúcar. Estoque, possuo dessas baboseiras. Distribuirei-as assim como um dias as recebi e de seus novos donos quero nada mais que sorrisos. Palavras de açúcar. Venha pegar a sua!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

domingo, 27 de julho de 2008

filmes. jurei não chorar. não choro.
filmes. jurei não crer. sinto...
o clichê romeu e julieta ainda vive.
eu... eu paguei por uma mentira e...
aquilo... senti de novo. aquilo.
aquilo... senti de novo. à quilo.
sinto... sinto sei lá o que
sei lá o que por sei lá quem
saudade dos romances esquecidos
vividos... vividos e não vividos
deve ser..

sábado, 26 de julho de 2008

Perto Demais

A ânsia pela sinceridade é o caminho para sentir seu gosto amargo quando tudo que se quer é sentir um gostinho doce. Perto demais para se deixar enganar. A verdade de um terceiro em algum momento é mentira para a primeira pessoa. Entenda-se que verdades são de um homem só e o prazo de validade não tem tempo definido.

Comi o doce e senti gosto amargo
Comi o amargo e o gosto realmente era amargo
Não como nada e sinto fome
Belisco beijos e sorrisos
Vejo doces.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Autos

No frio da serra me vi de cima pra baixo e congelando meu auto-retrato vivi um não-eu. Quero mais. Não servir aos meus propósitos. Não ter propósito algum, senão o dia seguinte. Criar propósitos pra outrem. Um auto-outrem, é verdade. Retorno ao meu inferno de desejos, ao meu "eu" recém engomado pelo banco do ônibus. As certezas que tenho é que minhas certezas são incertas e que ser a marionete do meu consciente é muito mais produtivo e menos doloroso, diria até, divertido.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Sorrisos

Só por hoje vou me vestir com sorrisos roubados, usados e esfiapados. Se tudo der certo, em breve, terei capital suficiente para abrir minha própria fábrica. Caso haja interesse, deixe contato. Retornarei assim que possível. O difícil me espera e, fugindo, ao seu encontro vou.
Inté.
das minhas lembranças quero ser nada mais que a terceira pessoa
não ando paralelamente com meus atos
e os boatos já não me horrorizam mais
escuto toda a sua ladainha
e a minha ladainha facial só é ouvida por mim
quero um vácuo sentimental
vou passar por baixo de uma escada
abrir um guarda-chuva em casa
quebrar um espelho
e ver um gato preto em uma sexta-feira 13
talvez traga sorte
já que nesse caso, sorte
é o meu próprio azar

sábado, 5 de julho de 2008

Passarinho

Como um passarinho andarilho de uma mente só, visitei-me levando uma boa nova, uma dúvida e uma vírgula. Me divirto de novo com o velho e minha película em preto e branco coloro agora em tempo real. Dúvidas são cruéis e quanto mais eu penso, mais me decido decidindo coisa nenhuma. A gloriosa vírgula nada mais é que um de meus pontos travessos zombando de minhas sentenças e requerendo nova audiência.
Agora eu que te digo passarinho: ontem me afoguei em uma das cadeiras do meu cinema interno. Hoje pela manhã me afoguei nas poças de água salgada na qual se transformaram minhas órbitas. E agora me afogo em uma embriagada felicidade sóbria.
Voe passarinho! E saia da minha gaiola mental! Me diga o que tem lá fora.
Preciso de uma nova acentuação. Por qual motivo meus pontos se parecem com vírgulas?

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Rotina

“A idéia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O inicio é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho é o oposto
A rotina do jornal é o fato
A celebridade é a rotina do boato
A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta é o rock
O coração é a rotina da batida
A rotina do equilíbrio é a medida
O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele é o arrepio
A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca é o desejo
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza
Toda rotina tem a sua beleza.”



(campanha natura todo dia)




Gostaria muito de saber de quem é, mas por falta de dados.. que fique essa pseudo propaganda.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Da auto-revista tive a vista de dentro em um encontro à dois.
À sós.

Passageiro

Viajei quilômetros mentais e me encontrei em uma situação constrangedora por tirar minha cobertura. Eu conversava. Via rostos conhecidos e desconhecidos também. Fazia piadas surradas e recebia os mesmos sorrisos de deboche. A troca de idéias permanecia comum. Fui ao meu médico psico-imaginário e ele me disse "Não fiquei assim... É passageiro. Isso saí na próxima lavagem". Quando eu começava a assimilar o conceito "próxima lavagem" fui despertada pelo soar do (in)consciente.


...


Quando será a próxima lavagem??? Devia ter dado tempo dele me dizer...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Quando voltava pra casa a ansiedade começou a reinar. As lembranças tentaram me iludir. Os passos se apressaram. A chave girou rápida na fechadura e o corpo se precipitou para o recinto primeiro do lar às avessas. Levei um balde de água fria e os minutos anteriores se dissolveram em frustração. Da frustração tirei energia para começar trabalhos idealizados. Peguei minhas ferramentas. Quando abri o saco de argila percebi-a tão doente quanto eu. Quase pus todas as minhas angústias pra fora, pra dentro da argila enferma. Ausentei-a para sempre do meu alcance. E, mais uma vez se dissolve a vontade de fazer. Ficam: a ansiedade, a frustração e o enjoo.

Diz!

Disfarça lágrimas em sorrisos
sentimentos com palavras duras
E ainda reclama por ninguém a compreender.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Palavras Inúteis

O tempo todo tenho pensado em versos. Essa nova forma inútil me incomoda. Penso em coisas sérias que são traduzidas por uma musicalidade infantil e completamente destoantes do sentido original. Chega!

E na cabeça continua...

tira o lixo
lavo a louça
tira o riso
deito a moça
não se importe
sofra
não surja
termine...

... e por aí vai: estrada à fora, cérebro adentro... Cérebro?

domingo, 29 de junho de 2008

Desejos Fora de Época

Talvez fosse melhor que tivesse continuado na gaveta. Não quero mais esses rompantes de emoções, pelo menos por enquanto. As traças a todos os meus desejos roeram ou, pelo menos, isso diziam à mim. Mentira. Hoje, pela manhã, um sentimento que eu jurava ter travestido se mostrou mais concentrado que à época, talvez. Conflitos mentais. Desejo, despido. Vontades, tardias.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Borrões. Têm sido minha produção artística. Gostaria muito de dizer que possuem algum valor, mas não pretendo me enganar. Quero entender em que processo me encontro pois sinto uma criatividade querendo transbordar mas não consigo enxergá-la e menos ainda fazê-la ser enxergada. Ou será que é tudo enrolação e essa "criatividade" não passa de uma vontade disfarçada? Ó CÉUS!

terça-feira, 24 de junho de 2008

De-Cisões

Decidi não ser mais meu atraso, e juro, parar de me sabotar. Amarrarei meus laços mas deixarei-os frouxos à quem quiser desatar. Decidi trabalhar sério e é sério, não mais levarei as coisas nas coxas ou nelas me transportarei. O tempo é um, e eu, uma fração, inteira.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

é tudo novo de novo.
da liberdade do passo quero arpar com o acaso
da liberdade da mente, fluir em espiral
da liberdade do corpo, o repouso
só.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fundência Real Por Um Mundo Imaginário

A fudência mental começa, sempre, quando o mundo imaginário desaba e tudo que pode ser visto é a realidade cruel, na qual as pessoas pisam, pisam e pisam uma vez mais nos sonhos mais íntimos de um pobre ser. Esses sonhos foram varridos pro cantinho. Doeu. Não contentes com a melancolia translúcida em uma face desinteressada, atearam fogo. O pico dos problemas mentais, na realidade, foi a falta de foco, a falta de objetivos concomitante com a completa destruição de objetivos tão antigos e almejados. Hoje, finalmente, depois de tanto pensar, as respostas para essas sensações negativas brotaram. Embalaram a cabeça que agora está em uma calmaria saudavelmente agitada por novos objetivos.

domingo, 15 de junho de 2008

Coro Inaudível

eu coro com o choro do nenem que nasceu morto
luto pra sair do inferno que nem ele pra sair da mãe
meus demônios internos me sufocam como o cordão umbilical na criança
golpeio os seres desprezíveis e constato que só firo a mim
eu quero sair da mãe
ele não quer ir pro inferno
o cordão sufoca
os demônios puxam
é quente
é frio
morre a vida
viva (n)a morte
me carrego no colo brincando com meu cadáver
andando por uma estrada escura

sábado, 14 de junho de 2008

Eu tinha que não querer.
Mas
não querer
é:
Anulação.

sábado, 7 de junho de 2008

Berço Diminuto

Estou caminhando para uma over dose da loucura do berço diminuto.
Não sei até quando suportarei essas amarras verbais.
Nem esses rostos bravejando gratuitamente.
Preciso de ar.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Irrigação Tardia

Quando o peso do esquecimento não mais me incomodava, pessoas que eu havia matado à tempos resolveram jogar seus cadáveres em minhas costas. Não tenho mais obrigação nenhuma com vocês. Nunca tive, não é assim que funciona? Se ao resolver tirar o pó das fotos velhas me acharam escondida ao fundo e pensaram ser necessário irrigar essa pobre planta velha, lamento informar: está morta. Tentei irrigar, eu juro. Mas vocês, me negaram água.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

as coisas vão uma merda, obrigada por perguntar =)

Da Capo - Sinfonia Malquista

a nota que só eu vi




a nota que se soprou aos meus ouvidos




inexistente



.



...



?

Sinfonia Malquista

Escrevi a sinfonia perfeita e ensaiei-a incessantemente desde então.
Não entendo em que hora o piano desafinou, mas foi, com certeza, a pior coisa que eu ouvi nos últimos tempos. Maldita velha cambaleante abafando meu som na última oportunidade que tive de salvar minha musica diária. Maldita nota desertora que não consigo cortar...

De tão errado chega a ser engraçado e rindo e chorando e xingando e sangrando e gritando:
morte à música
morte à poesia
morte à arte
morte aos sentidos
morte ao que eu sinto
morte à mim
morte
.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Lados

te vi
de longe
de lado
e eu
do outro lado
errado.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Marionete de Vidro

Pare de olhar para mim... Você é um "eu" feito de vidro chorando lágrimas celestes que nem ao menos se faziam necessárias. Pare de olhar para mim, eu imploro. Esses olhos vermelho-presentes, gracejando o que sua tímida boca é incapaz de exprimir, me dão medo. Por que parece que vou sucumbir ao seu olhar? Meu olhar... Por que eu tive medo de uma marionete de vidro? Por que eu te vi diferente de mim? Ou me vi... Reflexo demoníaco algoz da sobriedade e pai do mau humor... Virei eu sua presa? Minha presa... Presa.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Plantação

Dormi. Quando acordei não era o mesmo lugar. Dúvidas foram plantadas e germinavam ferozmente como num conto infantil. O cheiro da nova plantação me causava náuseas. Pensei em botar fogo em tudo pra ver no que dava. Foi então que uma voz se precipitou e imobilizou meu corpo. Com a impaciência de uma criança que foi posta de castigo, ouvi tudo o que a aquela voz sábia tinha a me dizer. Sumiu. As plantas pararam de se estender. Permaneceram só as que lá já estavam. Cortei alguns galhos e construí um casebre. Agora, instalada em dúvidas, eu as observo com a tranquilidade de quem possui a eternidade.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Estou tentando me aprofundar no novo, eu juro. O olhar é novamente infantil, querendo perceber tudo para ver se reconhece mais tarde. Os rompantes de cólera tentam anuviar esse estado pra me tacar de volta no buraco sufocante que me abrigava há meses. Não quero. Não vou voltar pra lá, desculpa.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Desapontamento Reciclável

desde que me senti maleável
anseio por me sentir outra vez - contigo
contei os dias
esperei o inesperado
nada
tinha absoluta certeza de ao menos vê-lo
não vi
talvez tenha sido bom
com isso tive a convicção do querer
não é um querer profundo
mas é incrivelmente desejado
como há tempos não sentia por ninguém

domingo, 18 de maio de 2008

Funesta Embriaguez

A superficial irresponsabilidade crônica que tem tomado posse de meu ser, não sei se por descuido, acabou sendo nada superficial. Feriu com certa profundidade alguma parte intacta da minha dignidade. Tenho vergonha. Nada faz sentido e me apegar a objetivos tem sido uma árdua tarefa.
Minhas sinapses ainda não funcionam bem. Acho que são a vergonha e a culpa impedindo-as disso. Estou embriagada por sentimentos destrutivos e ao mesmo tempo sei que a cura está a meu alcance. Mas frases soltas de julgamentos doloridos ainda me açoitam.
Não era pra ser assim... Não era por isso... Não quero sentir culpa por algo que não estava fazendo...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Projeção

Finalmente tive o prenúncio de que o relógio completará o giro. A máquina do tempo até chegou a ensaiar minha projeção no futuro. Que nem daquela vez em que os olhos buscavam o descanso do velho. Acho, porém, que menor importância estava dando agora. Mas percebo ser "igual que nem". Não sei por que insisto em esquecer a ordem das coisas. E, efetivamente, a redução de vezes na semana é das melhores silhuetas que eu poderia pretender, até me dar conta de que os adornos do acaso podem ocorrer a qualquer momento. Não quero ser preconceituosa comigo mesma... Vou esperar as palavras esfriarem pra descobrir o sabor da sobremesa!

sábado, 10 de maio de 2008

O Velho, o "Novo". Nada

É muito louco sentir um ano e meio em menos de uma semana que provavelmente durou cerca de 10 minutos. É estranho amar de novo o passado. Sentir a ansiedade passada. Sentir as dores passadas mas com uma nova configuração. Sentir-se indesejado e ignorar. Relembrar a experiência antiga como se a ocorrência real tivesse sido mero sonho a fim de alertar, no sonho em si, que não daria certo. Déjà vu do estar só.
Estar só.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Maldito Seja

o dia nem tinha nascido e já se mostrava desagradável no parto
foi dada a luz em um suspiro frustrado do sonho que deveria ter sido e não foi
esse aglomerado de sentimentos ruins transparecem na face
nas roupas
no gestual afetado...
talvez a aceitação, ou mesmo a consciência tardia, tenham sido o imã para o que veio depois

a aula chata
a cara feia
o trabalho inviável

o almoço enforcado

a suprema falta de interesse pela aula seguinte
o sono em excesso
o abandono do dever...

a espera pelo ônibus sentido frio, calor, frio, calor, frio...
ter que entrar na jaula
querer ser legal e ficar com pesos nas pernas
[dormir]
acordar quase caindo do banco

ver a cara feia oferecida pelos porteiros
ler coisas preocupantes e se preocupar mesmo sabendo que não deve
ser ignorada
dormir horrores e acordar com sono
não fazer o que tinha sido programado

por que o botão do automático não funciona para o dia que merecia aborto?
por que os minutos andam com tanta preguiça?
por que eu...
por que...
por q...
por...
...
..
.

e o dia ainda não acabou
e os minutos ainda se arrastam...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Grito Mudo

Não entendo essa voz macia que cisma em escapar de meus lábios quando, no íntimo, tudo o que quer é soar estridente ou, até mesmo, não soar. A compreensão só piora quando essa docilidade aparente é dirigida à um estranho. - "Por que?" - Essa pergunta tem me alugado com a frequência diária de "ser o que não é", por pura incapacidade de se impor frente ao automático. É automático mentir para quem não se conhece?
Aí... Esse som que ecoa em minha cabeça... Parece o sino de uma Igreja dizendo que horas são, mas na verdade é a revolta por se revoltar e calar. Até quando?
Por que você se engana enganando? Você tinha parado com isso, lembra? É o medo de ser taxada? Já foi! Doeu tanto assim? Cadê aquele grito de foda-se o mundo que você se prometeu e até chegou a ensaiar? Vai se calar agora? Logo agora que você tinha resolvido ser por completo? Tenho vergonha de você! Covarde! Mentirosa!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Caminhando Entre Aromas Impertinentes

A mente insana conduzia um corpo desvairado
Calçada, asfalto, calçada, asfalto
CARRO!
Movimento abrupto em recusa da morte
Paralisia cerebral
Focar no objetivo
A vez é da mente perdida ser guiada
aromas: comidas
aromas: pessoas
aromas: lembranças
aromas
aromas
aromas
Pertencentes à que? À quem? Pra quê?
Parem de embaralhar os pensamentos
CHEGA!
Calçada, asfalto, calçada, asfalto...

domingo, 4 de maio de 2008

Auto-degustação

Quero me dissolver na água pra ver como fica.
Bater bem forte no liquidificador em busca de uma mistura homogênea.
Coar esses pedacinhos que atrapalham o degustar.

Vou me servir na melhor taça da cristaleira.

Amargo, doce, salgado, azedo ou apimentado?
Não, apimentado sei que não.
Mas o sabor, esse ainda não sei.

sábado, 3 de maio de 2008

Troca

Você não quer me ver.
Eu simplesmente estou quando você passa.
Ou não.
Cansei de ser o "vamos?".
Quero ser o "sim" ou o "não".

A Verdade

O ressentimento que exalava de mim acabou estilhaçando o espelho.
Aquele que vinha sustentando com as mãos.
Servia para minimizar os efeitos, ou até mesmo me iludir, deste mundo turvo.
Eu lembro ter dito não me importar com a cegueira.
Mas a verdade: essa luz machuca, e muito, os olhos.
Talvez seja essa a hora de por os óculos escuros...

Brinquedo Velho

Por que você insiste em dormir pra sonhar com o brinquedo velho?
Não o jogaram fora!
Por que você insiste em não ver?
Ele está sozinho e empoeirado na estante acima de você. Obedientemente do jeito que o deixaram.
Por que tem que ir tão longe buscando algo que está tão perto?
O que você quer?
É o brinquedo? Ou o que você sente quando lembra?
Eu quero brincar - ele diz.
E você?
Continua sonhando.
Por que você se nega em sentir de novo?
Se acha velha demais pra deixar fluir seu lado criança?
Ele quer brincar! Vá! Pare de se reprimir.
Ninguém está vendo.
Tomara que você perceba logo que ele ainda está aí.
Tenho medo do que possa sentir quando ele não estiver mais...

Açougue

Não aguento mais esse cheiro de carniça.
Detesto me sentir envidraçada na parte refrigerada do açougue.
Será que é pensado: leva quem pechinchar melhor?
Aí! Como esses olhares de procura pelo melhor pedaço me irritam! Tomara que todos, eu disse TODOS, só achem carne estragada... E que voltem à seus lares sucumbindo de fome.
É... Pare de pensar essas coisas... Vá, se divirta.
Que bom que essa discussão de um homem só não durou muito.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Pedido

Caro Ciúme,
Venho por meio desta, pedir firmemente que vá embora. Entenda, não é que eu não goste de você, é que já são tantos anos me acompanhando e mesmo assim não consigo me acostumar com sua presença. Acho que mereço experimentar novos relacionamentos, não? Eu sei que você trabalhou para que eu te aceitasse, que quis ser meu amigo e coisa e tal... Enfim, não dá certo. Fora que as vezes você fica meio doentio... Não queria que fosse assim... E menos ainda por carta... Espero que não fiquei chateado.
Beijos,
Zelo.



P.S.: Procure a Inveja, acho que se dará melhor com ela.

Colateral - Parte II

Mais uma vez o ambiente se funde à sua frente. Agora, está seguindo uma estrada cujo conhecimento teórico possuía desde que tomou consciência de sua existência. Maturidade, estava escrito na plaquinha. Vacilou frente ao crescimento iminente e decidiu recuar ao ponto de partida.
Segurou a chave com as mãos trêmulas e quase não acertou o buraco da fechadura.
Abriu a porta. Depositou a chave em um canto qualquer e saiu à procura do alguém com quem havia conversado à pouco.
O tempo da procura parecia interminável. Não se tem conhecimento se o ambiente é que era grande ou se foi a ânsia pela conversa tolhendo-lhe a razão. Mas estava lá. Adormecida dentro de um armário velho e empoeirado, que creio nunca ter sido percebido antes. Sacudiu o corpo com veemência, como se através desse ato fosse obter alguma resposta. Recebeu um olhar sonolento seguido de um acesso de fúria inimaginável quando contrastado com a meiguice anterior.
- Você por um acaso esqueceu as últimas palavras que eu dirigi à sua pessoa??????????????????????????
- Mas é claro que não. E, inclusive, posso repeti-las uma à uma se for de sua vontad...
- Só pode ser brincadeir...
- "Vou tirar um cochilo e nem pense em me acordar para abri-la", foram exatamente essas suas palavras.
- Droga! Você parece meio burra mesmo, ou então fica aí se fazendo de besta pra me tirar do sério...
- Tá mais calma?
- NÃO! E é melhor você falar logo por que voltou! Não te esperava por aqui tão cedo... - baixou tanto a voz que é de se espantar que ela própria tenha se ouvido - E pra ser sincera, acho que já enjoei de você...
- Não ouvi o que falou por último, pode repetir?
- Ah! Nada não hehehe - disse elevando a mão à cabeça.
- Então... Eu voltei porque acho que tive uma espécie de Déjà vu ao sair. Peguei algumas estradas e acabei na Maturidade, mas tive medo... Lembrei de umas conversas com minha mãe e tals...
- Isso??
- Bem... Eh...
- Diga o que quer saber.
- Quando você disse que me castrou mas que na realidade só dependia de mim e que eu tava de férias... Quê quis dizer com isso?
- Pensei que tivesse entendido... Tá... Talvez eu tenha sido meio falsa com você. Talvez eu tenha abusado da sua ingenuidade para conquistar sua confiança. Talvez o meu objetivo fosse que você se tornasse uma pessoa como outra qualquer...
- Você mentiu?
- Na realidade eu não sei...
- Aquele lance de "o eterno só depende de você" era mentira?
- Aíííí!!!!!! Já disse que não sei caramba!!!! Talvez eu quisesse que fosse...
- Você queria me inserir no tédio desde tão cedo????
- Não! Eu só queria que você não sofresse mais! Pare de me por contra parede!
- Você acha justo o que pretendia fazer comigo? Não percebe que esse tédio te açoitaria tanto ou mais que o que você chamou de "intenso"?
- Acho que não tinha percebido assim...
- Que faço de mim agora?
- Não sei...
- Quando eu não precisava da sua opinião, logo se prontificou em se intrometer...
- É que eu não quero te confundir de novo. Com sinceridade, penso que você deveria crescer como todo ser humano faz, conscientemente, ou não.
- Você não entende que assim minha vida é transformada em um filme mudo e em preto e branco????
- Como à de todos??
- E quem disse que eu quero ser igual?
- Bem... Sempre te pegava pensando isso para ser aceita...
- Era mentira!!!!!!!!!!!!
- Tem certeza??
- Agora tenho.
- Hmmm...
- Me diz! Por favor! O que eu faço pra essa frieza parar de aumentar??? Preciso saber!! Não quero ser um adulto!! Quero continuar a ver as coisas como sempre vi! Quero continuar sendo criança até morrer, se for preciso! Quero o entusiasmo infantil! Quero a ansiedade! Quero!
- E agora você diz isso...
Chorou durante horas. Uma frente à outra. A escassez das palavras ocorreu automaticamente. E o silêncio findou sua cólera levando-a de volta à realidade. Ou não.

Imagem X Objeto

A imagem das pessoas não me interessa mais.
Agora eu quero o objeto em si, mesmo que esse me cause cegueira.
De reflexo, o meu me basta.
Aliás, cansei de me ver invertida...
E o máximo que posso fazer é parar de mostrar esse ser ilusório criado para auto-proteção.
Será pedir demais querer deixar de ver o mundo através de um espelho?

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Baralho

Ludibriado por uma fragilidade aparente, enlouquecia ao esboçar de um sorriso. Adoeceu por um romance forçado. Talvez o medo do sentimento de perda tenha feito com que recebesse um sim, ao por todas as cartas na mesa em um pedido de casamento.
Alguns anos se passaram e esse romance esquisito se dava por papéis, gravações e presentes que percorriam o mundo à procura da dona. Até que um belo dia, o remetente, fez o percurso de seus embrulhos. Dessa vez, o intuito, era finalmente ser presenteado.
Com a data da união marcada, tudo parecia que tinha sido mantido em perfeito estado de harmonia.

Levou o embrulho consigo. Não é sabido ao certo se o desinteresse se deu pela conquista ou se ele já existia e a união maldita ocorreu por puro capricho.
Aquele embrulho tímido, e sem palavras à oferecer na nova língua, se decepcionou a ponto de induzir o estado de coma durante mais de 20 anos.
Foi despertado de suas trevas mentais e agora com mais estranhos à volta luta incessantemente para não mais ser anulado.

É... Parece que houve um retorno ao início da história, agora você está louco de novo, mas não por amor [o qualquer nome que tenha o que sentiu àquela época]. E seu baralho, consumido pelo tempo.

Colateral - Parte I

Foi no sacolejar do banco de trás do ônibus e com o mal estar de um corpo dopado que o transitar de um lugar à outro foi reduzido a flashs por uma viagem simultânea que ocorria em sua cabeça.
Ela gritava para si e incrivelmente a resposta se configurava com uma voz anormalmente calma e aveludada. Foi com essa voz de dar asco que dizia para si, quase em sussurro:
- Eu castrei sua capacidade de gostar, não sinta raiva de mim. Fiz isso para que aquelas feridas estancadas a pouco se tornassem estéreis, pois a proliferação delas inevitavelmente virariam um cancêr mental. Não me olhe com esses olhos lacrimosos, você sabe que era o melhor a ser feito. Seu castigo, por impor aos outros algo que nem mesmo você quer, será conviver com esse vazio durante o eterno.
- Mas...
- Eu já disse! E não me venha com "mas", sua pena é leve e você bem sabe disso... E o eterno só depende de você. Apesar de ter nomeado como castigo, acho que deveria ser encarado como uma oportunidade. Veja-se de férias do intenso, do imenso que vive em você e cisma em escapar nas horas erradas... Escondi tão bem que nem eu vejo ou sinto daqui...
- Eu sei que você tem razão... Mas por mais que me sinta leve, a ponto de sair flutuando por aí, me sinto sem um pedaço. Sempre pensei ser essa minha essência.
- Essência?? Você não se acha nem um pouco prepotente ao pensar isso???? Não é questão de ser sua essência, é de ser algo comum ao ser humano. A questão é que você não estava sabendo lidar com isso, resolvi então intervir, ou já esqueceu que quando você sofre sou eu que tenho que ficar aguentando o seu nhemnhemnhem e limpando suas feridas??
- Você acha que eu tava sendo egoísta?
- Lá vem você com essa paranóia de novo... Mas já que tocou no assunto...
- Se eu pedir desculpas vai mudar alguma coisa?
- Comece pedindo desculpas pra si mesma, acredite ou não, foi quem mais prejudicou.
- Tá... E depois?
- Reconheça-se, abra a porta e saia.
- Ah... Isso??
- Você acha pouco?
- Bem, na verdade não hehehe
- Você lembra que eu guardei a cópia das chaves no prego da cozinha, ?
- Ih! Ainda bem que você falou.
- Como é miolo mole... E lembre-se de não entregá-la pra nenhum estranho ou perder por aí. Vou tirar um cochilo e nem pense em me acordar para abri-la.
- Tá! Beijos!
- Ainda taí??
A porta bateu. O estampido retirou-a de seus devaneios tornando possível a retomada do controle físico e o ato de descer no ponto certo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Avesso

Embora você não saiba - e provavelmente nunca fique sabendo - foi de vital importância para um "eu" despedaçado que se mostrou íntegro, por puro orgulho.
Foi com sua abordagem singular que cativou aquele ser ainda desprovido de razão. Tudo muito rápido e meio louco. Assumiu-se o compromisso de se conhecer melhor posteriormente.
Seu erro: querer se doar e sufocar um certo alguém que só reconheceu seu valor depois de muito ponderar. E, ainda assim, nada sente além de gratidão.
Se depois de experimentar a expectativa encontrou-se com um gosto amargo, tudo que se pode fazer é pedir desculpas. E agradeça, pois esse desgosto foi o melhor
que pode ser feito, acredite.

Eliza [do passado delas]

Sou o passado delas no meu presente/futuro. Nunca pensei que fosse capaz de ser assim, de sentir assim.
Tudo o que censurei calada para mim mesma é o que tenho feito, é o que tenho sido.
Tão pouco imaginei que sentir pela metade, seria sentir por inteiro. E que aceitaria isso, pelo menos até o presente momento...
Só não quero voltar a sentir aquilo de quando eu não me identificava com outras pessoas. E menos ainda, virar um cachorrinho que sai correndo ao estalar dos dedos do dono.

Busca

Deixar que as coisas aconteçam por si é difícil. Conseguir isso fugindo do que se sente dói quando os sentidos estão embriagados. Vem a vontade de vomitar, o sono.
Dormir.
A ressaca entra pela porta da frente e ainda há a recusa do remédio.
Banho.
Tempo.
Os sentidos se assentam e o controle de si reaparece em silêncio. Era tudo uma intenção real criada para um ser imaginário? [de novo?]
A tentativa de se reinserir na sociedade é inconsciente até tornar-se perceptível. Tentativa bem sucedida? Não se sabe.
Busca-se a todos e a vontade não é saciada. Conflitos sem intenção. Indesejados.
Novas pessoas surgem. Ações desprovidas de sentimento gerando reviravolta sentimental.
Um passado recente se presentificando na fase aprendiz onde todos os desejos ocultos estão à tona.
Sair do canto é o que se quer.
Ser é o que se busca.

Ontem

Voltando à um passado nem tão distante, tive horas agradáveis pondo tudo em pratos limpos: revendo, vendo e entendendo conceitos.
O foco foi o "eu" e como ele atua em relações amicais.
Meu delírio, causado pela conversa inconscientemente tão buscada, foi cortado pelo início do delírio alheio.
Isso me levou à mais uma prova de egoísmo latente e como uma situação pode ter diversas interpretações.
Se por um lado me odiei por pensar principalmente em mim ao tomar minha decisão, consegui com tal atitude mesquinha encontrar uma das maiores provas de amizade que eu poderia oferecer à alguém.
Essa ambiguidade me atormentou durante o meu solitário caminho de volta e ainda me cutuca.
Sou desmerecedora da gratidão empregada e consciente de que qualquer explicação é inválida.
Por que as pessoas cismam em sentir coisas não correspondentes?

Se fosse traduzir o ontem, o ponto de maior importância já está descrito e foi vivido em sua intensidade plena enquanto conservado em estado de delírio.
Mas posteriormente experimentei a passagem por um ermo caminho mental que tem se
desenvolvido em mim e me peguei, uma vez mais, traçando rotas fisicamente já feitas em busca de um passado atualmente invisível.
Quanto mais essas rotas instintivamente se repetem me tomando de sobressalto em algum momento, mais tenho a impressão de que a imunidade à isso está sendo alcançada.