quarta-feira, 30 de abril de 2008

Baralho

Ludibriado por uma fragilidade aparente, enlouquecia ao esboçar de um sorriso. Adoeceu por um romance forçado. Talvez o medo do sentimento de perda tenha feito com que recebesse um sim, ao por todas as cartas na mesa em um pedido de casamento.
Alguns anos se passaram e esse romance esquisito se dava por papéis, gravações e presentes que percorriam o mundo à procura da dona. Até que um belo dia, o remetente, fez o percurso de seus embrulhos. Dessa vez, o intuito, era finalmente ser presenteado.
Com a data da união marcada, tudo parecia que tinha sido mantido em perfeito estado de harmonia.

Levou o embrulho consigo. Não é sabido ao certo se o desinteresse se deu pela conquista ou se ele já existia e a união maldita ocorreu por puro capricho.
Aquele embrulho tímido, e sem palavras à oferecer na nova língua, se decepcionou a ponto de induzir o estado de coma durante mais de 20 anos.
Foi despertado de suas trevas mentais e agora com mais estranhos à volta luta incessantemente para não mais ser anulado.

É... Parece que houve um retorno ao início da história, agora você está louco de novo, mas não por amor [o qualquer nome que tenha o que sentiu àquela época]. E seu baralho, consumido pelo tempo.

Colateral - Parte I

Foi no sacolejar do banco de trás do ônibus e com o mal estar de um corpo dopado que o transitar de um lugar à outro foi reduzido a flashs por uma viagem simultânea que ocorria em sua cabeça.
Ela gritava para si e incrivelmente a resposta se configurava com uma voz anormalmente calma e aveludada. Foi com essa voz de dar asco que dizia para si, quase em sussurro:
- Eu castrei sua capacidade de gostar, não sinta raiva de mim. Fiz isso para que aquelas feridas estancadas a pouco se tornassem estéreis, pois a proliferação delas inevitavelmente virariam um cancêr mental. Não me olhe com esses olhos lacrimosos, você sabe que era o melhor a ser feito. Seu castigo, por impor aos outros algo que nem mesmo você quer, será conviver com esse vazio durante o eterno.
- Mas...
- Eu já disse! E não me venha com "mas", sua pena é leve e você bem sabe disso... E o eterno só depende de você. Apesar de ter nomeado como castigo, acho que deveria ser encarado como uma oportunidade. Veja-se de férias do intenso, do imenso que vive em você e cisma em escapar nas horas erradas... Escondi tão bem que nem eu vejo ou sinto daqui...
- Eu sei que você tem razão... Mas por mais que me sinta leve, a ponto de sair flutuando por aí, me sinto sem um pedaço. Sempre pensei ser essa minha essência.
- Essência?? Você não se acha nem um pouco prepotente ao pensar isso???? Não é questão de ser sua essência, é de ser algo comum ao ser humano. A questão é que você não estava sabendo lidar com isso, resolvi então intervir, ou já esqueceu que quando você sofre sou eu que tenho que ficar aguentando o seu nhemnhemnhem e limpando suas feridas??
- Você acha que eu tava sendo egoísta?
- Lá vem você com essa paranóia de novo... Mas já que tocou no assunto...
- Se eu pedir desculpas vai mudar alguma coisa?
- Comece pedindo desculpas pra si mesma, acredite ou não, foi quem mais prejudicou.
- Tá... E depois?
- Reconheça-se, abra a porta e saia.
- Ah... Isso??
- Você acha pouco?
- Bem, na verdade não hehehe
- Você lembra que eu guardei a cópia das chaves no prego da cozinha, ?
- Ih! Ainda bem que você falou.
- Como é miolo mole... E lembre-se de não entregá-la pra nenhum estranho ou perder por aí. Vou tirar um cochilo e nem pense em me acordar para abri-la.
- Tá! Beijos!
- Ainda taí??
A porta bateu. O estampido retirou-a de seus devaneios tornando possível a retomada do controle físico e o ato de descer no ponto certo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Avesso

Embora você não saiba - e provavelmente nunca fique sabendo - foi de vital importância para um "eu" despedaçado que se mostrou íntegro, por puro orgulho.
Foi com sua abordagem singular que cativou aquele ser ainda desprovido de razão. Tudo muito rápido e meio louco. Assumiu-se o compromisso de se conhecer melhor posteriormente.
Seu erro: querer se doar e sufocar um certo alguém que só reconheceu seu valor depois de muito ponderar. E, ainda assim, nada sente além de gratidão.
Se depois de experimentar a expectativa encontrou-se com um gosto amargo, tudo que se pode fazer é pedir desculpas. E agradeça, pois esse desgosto foi o melhor
que pode ser feito, acredite.

Eliza [do passado delas]

Sou o passado delas no meu presente/futuro. Nunca pensei que fosse capaz de ser assim, de sentir assim.
Tudo o que censurei calada para mim mesma é o que tenho feito, é o que tenho sido.
Tão pouco imaginei que sentir pela metade, seria sentir por inteiro. E que aceitaria isso, pelo menos até o presente momento...
Só não quero voltar a sentir aquilo de quando eu não me identificava com outras pessoas. E menos ainda, virar um cachorrinho que sai correndo ao estalar dos dedos do dono.

Busca

Deixar que as coisas aconteçam por si é difícil. Conseguir isso fugindo do que se sente dói quando os sentidos estão embriagados. Vem a vontade de vomitar, o sono.
Dormir.
A ressaca entra pela porta da frente e ainda há a recusa do remédio.
Banho.
Tempo.
Os sentidos se assentam e o controle de si reaparece em silêncio. Era tudo uma intenção real criada para um ser imaginário? [de novo?]
A tentativa de se reinserir na sociedade é inconsciente até tornar-se perceptível. Tentativa bem sucedida? Não se sabe.
Busca-se a todos e a vontade não é saciada. Conflitos sem intenção. Indesejados.
Novas pessoas surgem. Ações desprovidas de sentimento gerando reviravolta sentimental.
Um passado recente se presentificando na fase aprendiz onde todos os desejos ocultos estão à tona.
Sair do canto é o que se quer.
Ser é o que se busca.

Ontem

Voltando à um passado nem tão distante, tive horas agradáveis pondo tudo em pratos limpos: revendo, vendo e entendendo conceitos.
O foco foi o "eu" e como ele atua em relações amicais.
Meu delírio, causado pela conversa inconscientemente tão buscada, foi cortado pelo início do delírio alheio.
Isso me levou à mais uma prova de egoísmo latente e como uma situação pode ter diversas interpretações.
Se por um lado me odiei por pensar principalmente em mim ao tomar minha decisão, consegui com tal atitude mesquinha encontrar uma das maiores provas de amizade que eu poderia oferecer à alguém.
Essa ambiguidade me atormentou durante o meu solitário caminho de volta e ainda me cutuca.
Sou desmerecedora da gratidão empregada e consciente de que qualquer explicação é inválida.
Por que as pessoas cismam em sentir coisas não correspondentes?

Se fosse traduzir o ontem, o ponto de maior importância já está descrito e foi vivido em sua intensidade plena enquanto conservado em estado de delírio.
Mas posteriormente experimentei a passagem por um ermo caminho mental que tem se
desenvolvido em mim e me peguei, uma vez mais, traçando rotas fisicamente já feitas em busca de um passado atualmente invisível.
Quanto mais essas rotas instintivamente se repetem me tomando de sobressalto em algum momento, mais tenho a impressão de que a imunidade à isso está sendo alcançada.