quarta-feira, 30 de abril de 2008

Colateral - Parte I

Foi no sacolejar do banco de trás do ônibus e com o mal estar de um corpo dopado que o transitar de um lugar à outro foi reduzido a flashs por uma viagem simultânea que ocorria em sua cabeça.
Ela gritava para si e incrivelmente a resposta se configurava com uma voz anormalmente calma e aveludada. Foi com essa voz de dar asco que dizia para si, quase em sussurro:
- Eu castrei sua capacidade de gostar, não sinta raiva de mim. Fiz isso para que aquelas feridas estancadas a pouco se tornassem estéreis, pois a proliferação delas inevitavelmente virariam um cancêr mental. Não me olhe com esses olhos lacrimosos, você sabe que era o melhor a ser feito. Seu castigo, por impor aos outros algo que nem mesmo você quer, será conviver com esse vazio durante o eterno.
- Mas...
- Eu já disse! E não me venha com "mas", sua pena é leve e você bem sabe disso... E o eterno só depende de você. Apesar de ter nomeado como castigo, acho que deveria ser encarado como uma oportunidade. Veja-se de férias do intenso, do imenso que vive em você e cisma em escapar nas horas erradas... Escondi tão bem que nem eu vejo ou sinto daqui...
- Eu sei que você tem razão... Mas por mais que me sinta leve, a ponto de sair flutuando por aí, me sinto sem um pedaço. Sempre pensei ser essa minha essência.
- Essência?? Você não se acha nem um pouco prepotente ao pensar isso???? Não é questão de ser sua essência, é de ser algo comum ao ser humano. A questão é que você não estava sabendo lidar com isso, resolvi então intervir, ou já esqueceu que quando você sofre sou eu que tenho que ficar aguentando o seu nhemnhemnhem e limpando suas feridas??
- Você acha que eu tava sendo egoísta?
- Lá vem você com essa paranóia de novo... Mas já que tocou no assunto...
- Se eu pedir desculpas vai mudar alguma coisa?
- Comece pedindo desculpas pra si mesma, acredite ou não, foi quem mais prejudicou.
- Tá... E depois?
- Reconheça-se, abra a porta e saia.
- Ah... Isso??
- Você acha pouco?
- Bem, na verdade não hehehe
- Você lembra que eu guardei a cópia das chaves no prego da cozinha, ?
- Ih! Ainda bem que você falou.
- Como é miolo mole... E lembre-se de não entregá-la pra nenhum estranho ou perder por aí. Vou tirar um cochilo e nem pense em me acordar para abri-la.
- Tá! Beijos!
- Ainda taí??
A porta bateu. O estampido retirou-a de seus devaneios tornando possível a retomada do controle físico e o ato de descer no ponto certo.

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